Ela não era sempre assim, não era de tamanha esperteza e tal conhecimento, era uma criança observadora, era sensível, recatada, chorava pelos cantos. Com o passar do tempo melhorou, um dia encontrei-me com ela. Na casa de sua mãe, uma boa e velha amiga em que eu confiava minha vida. Chorava. No corredor da casa de sua mãe, uma mansão na verdade, diferente de sua casa, simples, com cadeira na calçada. Me perguntei se devia ou não falar com ela, afinal ela estava chorando, talvez precisasse de um consolo. Perguntei para ela, porque chorava. Ela disse que sua mãe nunca havia a compreendido, que sempre foi assim por toda sua vida, dizia que isso vinha de infância, que ela nunca parou pra conversar com a filha, e quando mais velha muito menos, cada uma tomou seu caminho, Elena casou-se. Com seu marido Sam, diretor de finanças da empresa de onde seu pai é dono. Tem 2 filhos, Joe e Sara. Perguntei para Elena se não a acalmaria lembrar de seus dois filhos. Ela disse que sim, e que não queria que seus filhos a vissem chorar, podiam sentir o mesmo sentimento vindo dela, e ela não queria que eles passassem pelo que ela tinha passado, era um sentimento muito amargo, disse Elena. Não duvidei dela. Elena me deixou seu número, caso depois quisesse ligar para saber notícias. Liguei duas semanas mais tarde, a empregada da casa antedera. Perguntei por Elena e o marido. Ela disse que estavam na piscina, fiquei feliz. Pedi pra chamá-la. Elena veio depressa, senti o ar de felicidade em sua respiração, senti que sorria. Estava bastante contente e perguntou se eu não podia ir à sua casa e tomar um chá com ela. Eu disse que sim, claro. Não iria recusar. Um chá de domingo, em uma família tradicional, mas era na casa de Elena, muito diferente da de sua mãe, Helga. Elena morava na praia, sua empregada trabalhou por anos para ela, foi sua babá. Sua casa tinha móveis rústicos, e era aconchegante, tinha uma lareira e coisas para acampar no quintal. Fui entrando á sua casa, fui recebida na piscina com um tremendo banho, que Joe pulara na piscina e me molhou inteira. Todos caíram na gargalhada. Depois disso me deu uma vontade de pular na piscina, fazia muitos anos que eu não experimentava tamanho lazer. Pulei de roupa e tudo, afinal, era uma ocasião especial. Elena estava feliz com Sam e as crianças, ele tirou férias e estava dando mais atenção à sua família, andava menos estressado, cuidava mais dos filhos e atendia as vontades de Elena. Quando estava na piscina me veio uma recordação muito idêntica, não lembrava disso há anos, há muito tempo não pensava no meu passado. Me lembrei do meu primeiro amor, com quem eu me casei, e tive meu primeiro filho. Taylor. Phillip era o meu marido, meu amor. Era possessivo, era rude, frio, bruto, os piores defeitos, Phillip tinha. Mas eu o amava daquele jeito. Com o passar dos anos meu casamento foi se desgastando, minha família não era mais a mesma e, eu desconfiava que Phillip tinha outra família, nos separamos tempo depois, uma separação conturbada, Phillip me ameaçava, não receei, e acabamos com tudo. Meu filho tomou um rumo muito diferente, que jamais poderia imaginar que um filho meu poderia tomar. Meu filho foi entregue ao mundo das drogas, Taylor era um garoto agitado, com pressa pra tudo. Quando menos esperei meu Taylor não estava mais em minha casa, morava sozinho em um velho cortiço. Não conseguia localizá-lo muito bem, ele não queria mais manter contato com a família, só sabia onde Taylor estava por causa de seu primo Julio, que me contava tudo, Taylor confiava tudo ao primo, mas ele precisava me contar. Taylor comprava drogas, na maioria das vezes não podia pagar e, devia tudo aos traficantes, sempre dava algum jeito de pagar, quando ia á casa de Julio, roubava de sua tia, Alice. Pagava, comprava mais, e ficava devendo de novo. Mas chegou um dia que ninguém queria mais saber de dívida. Meu filho foi morto, por tiros e depois foi esquartejado em 2 de fevereiro de 1994, tinha tanta vida. Dali pra cá eu não consegui mais retomar minha vida de antes. Pra mim tudo ficou mais sério, justo, democrático. Depois veio tudo a minha mente, e eu chorei, Elena me acalmou. Contei a minha história, e a de meu filho pra ela e para Sam. Eles se emocionaram também, e disseram que sempre Deus sabe o que faz, eu acredito. Eu acredito em Deus, pode ser uma situação irreparável, mas coisas melhores virão, eu sei. Paramos de chorar. Saí da piscina, coloquei uma roupa de Elena, na verdade era uma camisola velha de sua mãe. À noite tomamos uma sopa bem quente, talvez estivesse fervendo, pois queimara meus lábios, enquanto o pestinha do Joe ria sem parar. Acabei dormindo na casa de Elena, como já estava muito tarde para ir à minha casa, dormi cedo, estava cansada, me deitei. Onde tive um pesadelo, Phillip voltava á minha casa e tentava me matar, tinha uma faca em mãos, eu me desesperava mas não havia ninguém em casa. A faca vinha em direção ao meu peito, e eu acordei. Não consegui dormir mais, tirei um terço de minha bolsa, acendi uma vela e comecei a rezar. Depois consegui pregar os olhos por poucas horas, contei o pesadelo para Elena e Sam. Ficaram assustados. Após o café da manhã, fui para minha casa, onde fiquei pensando o dia inteiro no pesadelo com Phillip, fiquei pensativa. Minutos depois o telefone toca e ouço uma voz irreconhecível e muito grave. Era Phillip, avisando que viria a minha casa e que eu preparasse tudo para sua vinda. Discordei. Phillip me ameaçou e disse que se não me desse o que queria iria me matar. Phillip queria dinheiro, mas eu não iria conseguir uma quantia tal alta em tão pouco tempo. Então decidi ir à casa de Elena, ele nunca iria saber que eu estaria lá. Desliguei meu celular e não tive mais notícias de Phillip depois daquilo. Mas eu tenho intuição de que alguma coisa ruim vai acontecer. É como se... Phillip irá voltar.
(Ruth Oliveira)
