terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Todos os dias na mesma hora ele aparece na janela. Mora no terceiro andar no prédio vizinho ao meu. Fuma. Tem sempre um cigarro nas mãos mas curioso, nunca fuma até o fim, dá umas poucas tragadas e o joga fora como se não pudesse esperar, como se tivesse coisas importantes para fazer. Parece ansioso. Conversa sozinho, bem, não tenho certeza, talvez haja alguém no apartamento com ele, mas não, ele me parece solitário e fala de fora pra dentro como se estivesse tentando entender algo e não de dentro pra fora como se quisesse explicar algo, então digamos que sim, que converse sozinho. Nunca me viu, ele não olha para baixo, sempre olha em frente como se procurasse respostas, mas acho que não as encontra, porque sempre volta. Ele é magro, tem poucos cabelos, é alto, tem mais de cinqüenta anos e menos de sessenta, não sei exatamente, seus poucos cabelos são brancos, tem um jeito de cansado, de quem sofre, por abandono, quem sabe. Eu o vi sorrir uma única vez, deu uma tragada e fechou a janela. Continuei ali me perguntando por que ele riu, do que lembrou, talvez tenha lembrado-se de um grande e velho amor, sempre sorrimos ao lembrar de um grande e velho amor, sempre sorrimos ao lembrar de um amor. Me viu, mas não prestou atenção, logo desviou o olhar, saí dali pra que ele não percebesse que eu o observava, mas acho que pouco se importaria, mesmo assim não queria correr o risco de não tê-lo ali, pois já era parte de mim.Todos os dias ia na janela, sempre na mesma hora para vê-lo, queria saber se mudara, se deixara de fumar ou se, quem sabe, sorriria de novo. Era um sorriso bonito, sim, amarelado, por causa do cigarro tenho quase certeza, mas era bonito e pareceu-me muito sincero. Acho que ago lhe fizera bem de verdade algum dia. Hoje está triste, cansado. Não fuma. Fitou o nada por alguns minutos e foi embora, mas dessa vez não fechou a janela, esperei que voltasse, não demorou e voltou com um copo na mão, dentro dele havia uma bebida, não sei qual. Olhou para o copo, brindou com o nada e bebeu, logo depois limpou uma lágrima que mal chegara a sair dos olhos. Sim, agora tenho certeza, está triste. Eu também estou. Depois olhou pra mim, dessa vez me fitou, como se soubesse que sempre estivera ali a observá-lo, talvez soubesse e por isso aparecia todos os dias, me olhou como se quisesse perguntar por que eu estava ali, mas não perguntou. Seus olhos eram de uma melancolia desconcertante, a medida que me olhava crescia em mim uma dor por não poder fazer nada. Continuou a olhar pra mim, acenou, mas não sorriu, fechou a janela. Continuei ali por mais alguns minutos, agora era eu quem procurava respostas, não encontrei. NO dia seguinte quando acordei a primeira coisa que tive vontade de fazer foi ir a janela, mas seria inútil, estava cedo, ele não apareceria. Passaram-se as horas e fui, mas ele não apareceu, conferi a hora, ele estava atrasado, mas a janela continuou fechada.E assim permaneceu. Ele não apareceu nunca mais. Ainda venho aqui todos os dias, já faz dois anos desde que o vi pela última vez, talvez não apareça mais. Nunca soube o que houve, talvez nunca venha, a saber, nem sequer sei seu nome. Hoje me sinto triste, melhorei de vida, comprei um apartamento num bairro nobre, hoje é meu último dia aqui, queria de alguma forma homenageá-lo, mas não sei como, na verdade nem sei porque. Chorei, não sei se porque estava indo embora da minha casa ou porque agora acabariam minhas esperanças de um dia voltar a vê-lo.
Fui à janela e fiz uma oração, não lembro o que pedi, mas sei que falei com Deus, e talvez tenha pedido para encontrá-lo na rua qualquer dia desses. Fui embora, mas antes escrevi um bilhete:
Se ele aparecer na janela, naquela onde o sol bate quando são três da tarde me escreva, me ligue Preciso vê-lo. Obrigada.

Nunca ligaram e acho que Deus também não me ouviu.

(Isabela Prado)

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